USO DE ISÓTOPOS ESTÁVEIS NA AVALIAÇÃO DAS POSSÍVEIS ALTERAÇÕES NA BIOTA OCASIONADAS PELOS EFLUENTES DE DESPEJO DE CULTIVOS DE CAMARÕES E PEIXES

 

As amostras para os isótopos foram realizadas nos mesmos viveiros e pontos aonde foram realizados o monitoramento da qualidade da água. Para cada viveiro estudado (de cultivo de camarão ou peixe) foram coletadas amostras antes do início dos cultivos, durante o cultivo, durante a despesca, e 30, 90 e 120 dias após o término do cultivo. Amostras nos mesmos períodos foram obtidas na área de controle.

 

Tendo como base estudos prévios na região (Seeliger et al. 1997, Garcia et al 2007), foram utilizados os seguintes grupos e organismos na análise isotópica:

- macrófitas: Spartina alterniflora e Enteromorpha sp.

- macro-invertebrados bentônicos: tanaidáceo Kalliapseudes schubartii, carangueijo Cyrptograpsus angulatus.

- peixes: barrigudindo Jenynsia multidentata, peixe-rei Atherinella brasiliensis.

 

As coletas foram realizadas com apoio de embarcações de pequeno porte (botes de alumínio com motor de popa) e as amostras foram obtidas em triplicata para cada espécie indicada acima. Também foram coletadas amostras (em triplicata) para determinação da composição isotópica da matéria orgânica no sedimento, perifíton (microalgas bentônicas), seston (fitoplâncton e detrito em suspensão, <50 μm), biofilme, efluente e do organismo sendo cultivado.

 

As amostras de macrófitas foram obtidas manualmente, o perifíton foi obtido através de raspagem (com espátula ou faca) de pecíolos de plantas aquáticas, troncos e outros materiais que servem de substrato para o estabelecimento da comunidade perifítica (Felisberto & Rodrigues 2005). As amostras de seston foram coletadas utilizando-se uma bomba de sucção manual, a qual serviu para filtrar o material suspenso na água num filtro pré-queimado de 500μm. O filtro foi envolto em papel alumínio, armazenado em saco plástico e preservado no gelo durante o transporte até o laboratório. Os organismos da infauna e epifauna foram coletados através um tubo de PVC (10cm de diâmetro; área 0,0078 m2) com profundidade de enterramento de 20cm, e posteriormente peneirados numa malha de 300μm (Pinto & Bemvenuti 2003). Os macrocrustáceos decápodes e os peixes foram obtidos com o uso combinado de rede de arrasto de praia, rede de arrasto de fundo e tarrafa. Para os consumidores como os peixes, que atingem maior tamanho (> 15 cm), amostras de diferentes classes de tamanho da espécie (juvenis e adultos) foram obtidas para que possíveis variações ontogenéticas possam ser avaliadas. Todas as amostras foram armazenadas em gelo até o seu transporte ao laboratório, e posteriormente processadas.

 

Em laboratório, as amostras biológicas foram descongeladas e processadas de acordo com o protocolo descrito em Garcia et al. (2007): 1) lavagem das amostras com água destilada para a retirada de possíveis materiais aderidos; 2) retirada de tecido das amostras para o processamento (p.ex., folhas das fanerógamas, tecido muscular (5g) dos peixes); 3) disposição das amostras em placas de Petri, previamente esterilizada com banho de HCl por 24h, e levadas ao forno (60°C) por 48 horas; 4) permanência das amostras no dessecador por algumas horas; 5) moagem das amostras utilizando-se grau e pistilo; 6) armazenamento das amostras (em pó) em vidros esterilizados. Após, as amostras foram enviadas para laboratório especializado (exterior), aonde foi feita a conversão deste material em gás para a leitura em espectrômetro de massa e determinação da razão isotópica. As razões isotópicas das amostras (13C/12C e 15N/14N) foram comparadas com os seguintes padrões comumente adotados: “marine limetone fossil” para o carbono e ar atmosférico para o nitrogênio, e foram expressos da seguinte forma (Peterson & Fry 1987): δ13C(‰) = [(13C/12C amostra) / (13C/12Cpadrão -1)] x 1000, δ15N(‰) = [(15N/14Namostra) / (15N/14Npadrão -1)] x 1000.

 

As variações temporais (antes, durante, despesca, 30 e 90 dias) e espaciais (entre os 7 pontos de coleta) nas razões isotópicas dos organismos coletados nos viveiros e na área controle foram analisadas primeiramente através de representações gráficas (biplots) e de análises multivariadas (MDS, Cluster). Posteriormente, as diferenças nos valores médios das razões isotópicas dos organismos foram testadas através de métodos paramétricos (ANOVA).